Maria Clementina Sequeira

Iniciamos este artigo com uma referencia religiosa dos nossos antepassados, os quais celebravam, pelo menos, duas grandes festas religiosas: O São João, no arraial do largo da capela (de areia solta e rodeado de pinhais, principalmente do lado nascente, onde hoje se encontra o Joka), e nas Pedras Ásperas, venerando Nossa Senhora da Conceição, onde a festa deveria ser majestosa (se tivermos em conta que foram sete estandartes e várias carcaças de andores).
Outro facto que não poderíamos deixar de realçar foi a capacidade evidenciada por uma Comissão de Homens (de boa vontade), que na primeira metade de século XIX (1830/1840), avançou com uma tarefa que na época, não teria sido fácil: trouxe para Sanguinheira um capelão que, para além de sacerdote, foi também o professor (provavelmente o primeiro) que ensinou os homens de terra a escreverem, lerem e a fazerem contas. Já que naquela altura era quase proibido às mulheres frequentarem a “escola”. 
Foi necessário, porém, construir uma casa para o capelão e a sua família (entre os quais uma sobrinha que veio com o marido, sapateiro de profissão e que fez muito jeito às gentes da Sanguinheira e arredores, já que nunca cá tinha existido ninguém com essa profissão, e vários filhos). Terão ficado até próximo de 1860.
Essa residência, de rés-do-chão e primeiro andar, foi demolida por um dos governos da I Republica, após o 5 de Outubro de 1910, e no mesmo lugar erguida a escola primaria (hoje salão nobre da Junta de Freguesia).
Para leccionar, nessa escola, chegou no ano de 1922 uma jovem donzela com 22 anos de idade, habituada aos mimos da cidade de Coimbra, onde tinha acabado de tirar o seu curso de Magistério local. Acompanhada da sua mãe, veio de comboio até Lemede e depois calcorreou as estradas de então, em areia solta, com as malas nas costas até Sanguinheira.
O que terá pensado nesse dia e nessa hora apesar de não o sabermos, não será difícil de imaginar. Ter-se a sentido como que enamorada pela Sanguinheira e pelas suas gentes rudes, mas dóceis, unidas e boas, já que acabou por lhe dedicar toda a sua vida.
Com a criação da escola masculina (e consequente divisão do edifício em duas salas contíguas). Maria Clementina Sequeira dedicou-se a instrução das meninas mas não perdeu o contacto e o espontâneo e natural ascendente sobre os alunos da escola masculina, quer através da catequese – a todos reunia na vizinha capela – quer pela feliz simbiose de acção educativa que soube manter com seu vizinho de sala: professor Manuel Rodrigues Romão. Como boa pedagoga e como “mãe” atenta a solicita, foi persuadindo as crianças mais renitentes a irem a escola e a completarem a«na maior parte a instituição primaria.
Para estar mais próxima da crianças ela começou por habitar num autentico barracão de madeira, contíguo ao edifício onde ensinava com porta directa para a mesma. Tendo sido ali aque muitos dos seus alunos e alunas se aqueceram a (tintarem de frio) ou enxugaram as roupas encharcadas nas manhas frias e chuvosas de Invernos.
A quantas crianças Maria Clementina Sequeira revigorou forças, quando a via mal alimentadas dando lhes comida quente e de melhor qualidade do que aquele que haviam ingerido em casa antes de saírem para a escola.
O temperamento de Maria Clementina Serqueira não se podia limitar a catequese das crianças. A sua fé profunda e o seu carácter dinâmico e empreendedor não podiam tolerar o estado de degradação em que encontrou a velha capela, a decrepitude dos paramentos, a sujidade da roupa litúrgica. Com as suas mãos hábeis, as de suas mãe e sobretudo as mãozitas inexperientes das suas alunas (guiadas pela habilidade e pacientemente corrigidas pela sua professora), foram feitos milagres.
Passado algum tempo seria difícil encontrar igreja ou capela em que as toalhas e demais roupas litúrgica tanto primassem pela decência e limpeza.
A sua enorme coragem e confiança ilimitada na Providência divina ficaram bem patentes quando, contrariando a opinião de muitos, se abalançou, praticamente sem recursos, ao restauro e ampliação da então capela viviam-se os tempos difíceis da 2ª guerra mundial, a população era pobre, os custos dos materiais aumentavam de dia para dia. Clementina Sequeira, então na pujança de suas forças físicas e anímicas, não recuou perante as imensas dificuldades. Teve isso sim o condão de encorajar os seus colaboradores, de dinamizar a angariação de fundos, e endividou-se. E com o seu magro vencimento de professora foi calando os fornecedores mais impacientes.
Se Maria Clementina Sequeira não passou verdadeiramente fome, foi porque o povo da Sanguinheira lhe levou a casa os géneros das suas terras e partilhou com a mestre escola a carne das salgadeiras, em quantidades que permitiram a pedagoga canalizar ainda muitas dessas ofertas para as Criaditas dos Pobres, em Coimbra.
Esse grande restauro foi inaugurado em 1942.
Outra tarefa (não menos importante) a que Maria Clementina Sequeira ousou abalançar-se e que lhe granjeou oposições e dissabores, às vezes provenientes de onde menos seria de esperar, foi criação da paróquia eclesiásticas.
Quando empreendeu a construção da casa que foi sua habitação durante vários anos, e que hoje pertence à fabrica da Igreja, na opinião da maioria, a casa era de Maria Clementina Sequeira. Mas na realidade, e por livre decisão dela logo de principio a habitação foi oferecida à diocese, ficando propriedade da então Predial Económica, que era pertença da Igreja Diocesana. Sendo este um sinal, mais que evidente, de que Maria Clementina Sequeira pensava, deste os primórdios tempos, na criação da paroquia e sonhava com a vinda de um pároco próprio.
Concluída a casa e legalizada a sua situação jurídica como propriedade situação jurídica como propriedade da igreja, logo Maria Clementina Sequeira refere ao bispo da Diocese estar disponível a deixar a casa assim que o prelado decidisse mandar um prior para Sanguinheira. E em 1945, por decisão do bispo de então, Dom António Antunes, a Sanguinheira tornou-se a m